Cristina
Kirchner exibe cicatriaz no pescoço resultante da cirurgia para
remoção da tiróide afetada por tumor maligno. Ela disse que fez
questão de mostrar a marca da cirurgia para evitar que a imprensa
oposicionista, especialmente o jornal portenho Clarín, levantasse a
hipótese de que ela teria se afastado da presidência da República
para fazer uma cirurgia plástica. (Foto
Web)
No
jargão dos cientistas políticos o caudilho é um chefe político com
poderes dados por força militar própria ou chefe militar, com
forças regulares ou irregulares que lhe são fiéis. O termo é
comumente empregado para ditadores latino-americanos que se mantêm
no poder cooptando comandantes militares das forças
armadas. Mas a terminologia ganhou ainda mais vasta aplicação
para qualificar o político que age como nos tempos do caudilhismo
na América Latina que vai da primeira metade do século XIX até à
segunda metade do século XX. Poder-se-ia considerar como marco
inicial do caudilhismo na Argentina a ditadura de Juan Manuel
Rosas (1829-52) que conseguiu unificar o país mediante
autoritarismo que findou com sua deposição. E é assim que são
classificados os presidentes argentinos desde o século passado,
passando por Hipólito Irigoyen (1916/22 e 1928/30) que também foi
deposto mediante golpe de estado e teve continuidade com Juan
Domingos Perón entre 1946/55 e 1973/74. O primeiro período
foi interrompido no segundo mandato pela deposição e o segundo
período pela morte.
Perón
assumiu a presidência da República em duas oportunidades por conta
da instabilidade política no país. No seu primeiro mandato
nacionalizou a rede ferroviária, a produção de gás, o Banco
Central, a rádio e algumas companhias de eletricidade, deu aos
trabalhadores vários benefícios como, por exemplo, 13 salários por
ano, folgas semanais, reduziu a jornada de trabalho e aumentou o
salário mínimo. No entanto, com o controle abusivo da economia
nacional num estilo eminentemente de natureza fascista e benefícios
desmedidos ao proletariado a economia do país entrou num ciclo
recessivo. Dir-se-ia que o caudilhismo praticado por Juan
Perón foi marcantemente populista, diferente de outros
exemplos de caudilhismo na América Latina que não tiveram
preocupação com o relacionamento com o povo enquanto o peronismo
tem viés populista e clientelista e teve na sua
primeira esposa, Evita Perón, como protagonista.
A
terceira esposa de Perón, chamada pelo povo argentino de
Isabelita, o sucedeu na presidência quando ele faleceu em 1974 mas
foi destituída do cargo em 1976.
Praticamente
a Argentina nunca deixou de dançar o tango caudilhesco
peronista da segunda metade do século passado em diante, inclusive
durante uma severa ditadura militar que se aventurou numa guerra
contra a Inglaterra para se apossar das Ilhas Malvinas (Falkland).
O mandato de Raul Afonsín (1983/89) se poderia isentar da
pecha de peronista pois restabeleceu a plena vigência das
instituições republicanas e as garantias constitucionais. Mais
recentemente temos o caso de Nestor Kirchner que foi sucedido pela
esposa Cristina. Nestor repetiu Perón ao fazer da esposa sua
sucessora na presidência. E para acentuar ainda mais o
caráter peronista do grupo que assessora a presidenta argentina,
ela ordenou a reversão da privatização da YPF que é a Petrobrás de
lá. O ato de estatização da empresa que na privatização ficou com o
grupo espanhol Repsol, provocou protestos no mundo
inteiro.
A
reversão da privatização da YPF deveria ter sido melhor
pensada pois cria instabilidade jurídica que é um dos principais
fatores de rejeição do capital estrangeiro para investir na América
Latina. E esta insegurança política penaliza não só a Argentina
como, também, todos os seus parceiros do Mercosul. O Brasil pode
perder na dança do tango estatista argentino pois os investidores
europeus e americanos podem não distinguir nitidamente as muitas
diferenças nossas com a Argentina. Aqui não há lamentos audíveis
quanto às privatizações especialmente no setor de telefonia que
propiciou a universalização do telefone com o advento dos
celulares pré-pagos.
O
quadro histórico atual parece confirmar o dito do economista
Roberto Macedo: “A
Argentina sonha com um passado que não volta; o Brasil sonha com um
futuro que não chega.”
Didymo
Borges
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O
Estado de S.Pulo – 20.04.2012
A
VELHA FACE DA AMÉRICA LATINA
A velha
América Latina do populismo e das políticas voluntaristas ganha de
novo espaço no cenário internacional, com a truculenta
reestatização da YPF. Essa marca da latinoamericanidad nunca foi
inteiramente apagada, mas vinha sendo ofuscada pelos sinais de
modernização de um continente conhecido até o fim do século passado
pela instabilidade política, pela irresponsabilidade da gestão
econômica e pelas crises financeiras frequentes. De repente, a
imagem do passado novamente se manifestou, com vigor, e atraiu a
atenção num foro multilateral.
Provocado
para falar sobre a nova ação do governo argentino, o presidente do
Banco Mundial, Robert Zoellick, classificou-a como um erro e
alertou para a importância de acompanhar com atenção os sintomas de
populismo. No dia anterior, o assunto havia sido tratado pelo
economista Augusto de la Torre, responsável, no banco, pela seção
da América Latina. É importante, disse ele, esclarecer rapidamente
as condições da expropriação e da compensação, porque essas
informações são essenciais para os investidores. Ele teria sido
mais didático se chamasse a atenção para os erros cometidos na
Venezuela.
Nos anos 90
os latino-americanos começaram a deixar de buscar auxílio do FMI.
Alguns, incluído o Brasil, se tornaram fornecedores de recursos
para operações de emergência. O Chile tomou a dianteira da
renovação, ficou isolado por algum tempo, mas acabou sendo seguido
por vários vizinhos.
Desde o
agravamento da crise financeira, em 2008, o mundo rico passou a ser
o foco dos problemas globais e das preocupações de entidades como o
FMI, tomando o lugar ocupado por muito tempo pelos
latino-americanos e outros países em desenvolvimento. As
instituições multilaterais elevaram ao primeiro plano dois desafios
- ajudar na recuperação da economia global e na reordenação do
sistema financeiro, socorrendo, ao mesmo tempo, os países mais
pobres da África, do Sul da Ásia e, em menor número, da América
Latina. Essa ordem de preocupações permanece, mas o cenário foi
perturbado, mais uma vez, pelo alerta lançado de Buenos Aires. O
passado está vivo e velhos vícios podem manifestar-se de forma
assustadora a qualquer momento.
Neste ano,
como na maior parte da última década, os latino-americanos ficaram
num confortável segundo plano, na lista das inquietações dos
dirigentes do FMI e do Banco Mundial. Na reunião de primavera das
duas instituições entraram em pauta a análise das medidas adotadas
para enfrentar a crise da Europa e os sinais de melhora na zona do
euro.
Mas há
perigos importantes à frente, advertiram dirigentes e
especialistas. O epicentro da crise continua na Europa, mas os
emergentes - que enfrentaram a crise global com sucesso até agora -
continuam vulneráveis a choques externos. A lista dos riscos inclui
o ajuste dos bancos europeus, com a provável contração de seus
empréstimos, e a instabilidade dos fluxos financeiros. A ameaça de
um choque parecido com o da quebra do banco Lehman Brothers, em
2008, permanece no horizonte. Além disso, há riscos internos,
derivados, por exemplo, da rápida expansão do crédito em países
como a China e o Brasil. Mas são, de modo geral, problemas muito
diferentes daqueles tradicionalmente vividos nos países
latino-americanos. É como se esses países houvessem subido vários
degraus na escala da seriedade e da respeitabilidade. Não se trata
de enfrentar a inflação descontrolada ou a velha crise do balanço
de pagamentos. Há problemas, mas decorrentes principalmente do
forte ingresso de capitais e da valorização cambial. No caso
brasileiro há o problema especial do "custo Brasil", mas é possível
enfrentá-lo antes que provoque consequências graves.
Já a nova
estripulia argentina chama a atenção principalmente porque mostra a
persistência de alguns dos piores vícios políticos da região.
Durante anos, as estatísticas argentinas foram citadas com reservas
em documentos do FMI e as ressalvas novamente apareceram no
Panorama Econômico Mundial divulgado nesta semana. Falta encontrar
a bala de prata capaz de liquidar certos males da
latinoamericanidad.